Escrever…

(texto extraído do blog confessioetconfessio)


Escrever parece ser um ato de necessidade de certos espíritos, certa compulsão. Clarice Lispector dizia que escrever era perigoso. Talvez a escrita mostrasse coisas estranhas, ocultas. De fato, às vezes me pergunto o que me motiva a escrever. Há uma energia que compele a ter necessidade de falar alguma coisa, uma força incontrolável que sufoca, naufraga em rebuliços. Os pensamentos me afogam e não me deixam em paz. Perco algumas madrugadas neste estranho incômodo e meu sono é roubado. É como se o pensamento quisesse me revelar alguma coisa, do nada. As indagações, as perguntas, as interrogações e as exclamações me surgem como se fossem uma revelação misteriosa da alma. E só me resta escrever, até que a alma descanse e solte o peso entorpecido dos pensamentos.

O papel, as palavras, parecem concretizar essas energias. Estas se tornam palpáveis. E as idéias, que outrora eram apenas forças abstratas, são visíveis, ao menos, na palavra. Se eu não obedeço a essa força de escrever, arrependo-me, porque elas vão embora da cabeça e toda a magia se perde junto. É algo que pede liberação e cujo descumprimento é frustrante. Quantas vezes nem liguei para esse chamado, tentava lembrar dos meus pensamentos e eles todos se perderam? É compreensível que certos escritores, em momentos inesperados, levassem um caderninho de notas para captar a hora incerta de seus próprios pensamentos. Por ora, há situações que produzem esses pensamentos: um incidente de menor tamanho, uma conversa de bar, um comentário tosco de alguém na rua, enfim, tudo isso pode estimular essa compulsão estranha de escrever. Até o mau humor inspira escritores. Dizem que Voltaire, em três dias, de pleno mau humor, escreveu um famoso conto satírico (embora ele escrevesse suas sátiras rindo horrores de seus inimigos espumando de raiva). Balzac era um escritor tão fanatizado, que não o tiravam nem mesmo para almoçar. Deixou volumes de romances. Miguel de Cervantes escreveu o Dom Quixote na cadeia. E nos deu a imagem do cavaleiro de triste figura. . .
Falei de romances. . .infelizmente nunca escrevi um, embora algumas histórias tenham surgido na minha cabeça. Cheguei a escrever o primeiro capítulo da minha história. Era um cavaleiro espanhol que confessava seus pecados a um frade português, em pleno inicio do século XVII. O pano de fundo das confissões seria a desenrolar da história. O problema é que o pensamento, traiçoeiro me escapou da cabeça. Tenho aquela idéia fixa de que se alguém deve escrever uma história, não deve contar a história pela história. Há de ter uma lição moral nos personagens e no enredo, uma personificação simbólica de uma mensagem produtiva. Ela tem de ser convincente, sem clichês. No entanto, só o primeiro capitulo parece que convenceu. Se é que convenceu mesmo, pois eu mesmo gostei! Lembro que li para um amigo o primeiro capítulo. Ele gostou. Menos mal. . .
Por uma época fui poeta. Certos tipos adolescentes costumam ser amorosos, românticos, cheios daquelas sensações do mal do século XIX. Eu fui um deles. O medievalismo contagiava minha cabeça. Acreditava-me o cavaleiro de armadura e escudo, relacionando o ritual do amor com a morte. Usava pseudônimos estranhos. Pergunto-me qual o sentido dessa relação, já que se uma coisa é o esplendor da criatividade, a outra é a destruição? É o sentimento que dá o amor: uma morte interior quando se decepciona. E escrevia compulsivamente poesia. Se o pensamento incomoda, que dirá o sentimento?! A imagem da mulher amada não me deixava dormir. Ela era simplesmente totalizante, um assombro devastador. Houve épocas em que tive a necessidade de escrever cartas para minhas damas. Em um desses “affairs”, cheguei a escrever mais de 20. Porém, parece que as mulheres já perderam o amor pelas palavras escritas. Muitas delas acham o expediente burocrático, cansativo. Têm preguiça de ler. Todavia, quando parei de escrever, algumas reclamaram. Talvez estivessem mal acostumadas. . .e eu tivesse perdido a inspiração.
Minha compulsão é com a realidade. No meu silêncio, observo as pessoas. Reconheço, sou uma figura relativamente estranha: se por um lado, pareço comunicativo, por outro, sou dominado por uma timidez imperiosa. É como se eu me comunicasse com as pessoas, mas, ao mesmo tempo, não tivesse a menor noção de estar lá, como se encontrasse deslocado do meio. Já me senti várias vezes assim. E a solução é observar pessoas, gestos e idéias. Como não poderia deixar de ser, isso acaba me insuflando idéias. Há quem diga que a mente desocupada é o terreno do diabo. Esse é o problema, ela me ocupa sempre, exaurindo-me. E aí surgem meus escritos.
Não sei por que escrevo. Um amigo meu me dizia que eu poderia ter a inspiração do profeta, influenciar pessoas. Talvez Deus tenha me dado uma missão. Contudo, jamais ouso falar em nome Dele. Quem sou eu para me sacralizar? Eu falo apenas por minhas idéias. Deus apenas as ilumina. Ou, ao menos, peço iluminação Dele.


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